As florestas tropicais são responsáveis pela concentração da maior parte da biodiversidade do planeta. Contudo, dificilmente associamos à essa riqueza biológica espécies com hábitos de vida parasitários. Geralmente, quando pensamos em parasitos lembramos apenas dos seus efeitos prejudicais e, de fato, muitos cientistas trabalham na tentativa de controle e erradicação de doenças parasitárias. Porém, esses temidos organismos desempenham papéis importantes nos processos biológicos e evolutivos dos indivíduos que parasitam (hospedeiros) e também na estrutura dos ecossistemas.

Para compreender a diversidade e a relação dos parasitos de células sanguíneas (hemoparasitos) com seus hospedeiros na floresta Amazônica, a doutoranda Amanda M. Picelli do Programa de Pós-Graduação em Zoologia da UFAM deu início em 2016 a uma longa jornada de coleta de dados na região da Amazônia Central. Com o auxílio de uma equipe de campo e de laboratório, 330 lagartos de 19 espécies foram capturados e tiveram o sangue analisado.

Os pesquisadores envolvidos no trabalho esperavam encontrar animais infectados, mas não haviam suposto que o número de lagartos positivos seria tão alto (ao todo foram 220 animais) e nem que os hemoparasitos observados seriam tão diversos. Foi possível detectar tripanossomas, microfilárias, espécies já descritas do gênero Plasmodium, entre outros parasitos menos conhecidos e prováveis espécies novas. Um detalhe muito interessante é que esse diagnóstico foi realizado no bom e velho microscópio de luz, o que mostra que essa ferramenta é ainda extremamente importante mesmo com o crescente uso das técnicas moleculares. Esses resultados estão reunidos em um artigo recentemente publicado na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências: Picelli AM, Ramires AC., Masseli GS, Pessoa FAC, Viana LA & Kaefer IL (2020) Under the light: high prevalence of haemoparasites in lizards (Reptilia: Squamata) from Central Amazonia revealed by microscopy. 92 (2): e20200428. https://doi.org/10.1590/0001-3765202020200428.

Este primeiro passo possibilitou a obtenção de informações para outras pesquisas, tais como a redescoberta de uma espécie de protozoário, Hepatozoon ameivae, que infecta o lagarto Ameiva ameiva. Essa espécie de parasito foi redescrita morfológica e molecularmente pela equipe em outro estudo que foi recentemente publicado na revista Parasitology Research: Picelli AM, Silva MRL, Ramires AC, Silva TRR, Pessoa FAC, Viana LA & Kaefer IL (2020). Redescription of Hepatozoon ameivae (Carini and Rudolph, 1912) from the lizard Ameiva ameiva (Linnaeus, 1758). 119 (8): 2659-2666. https://doi.org/10.1007/s00436-020-06760-x.

Essas duas publicações mostram que a Amazônia Central, além de uma expressiva diversidade de espécies de hospedeiros, abriga também uma rica fauna parasitária. Futuramente, os autores esperam usar a grande quantidade de informações geradas durante o doutorado da pesquisadora em outros estudos de taxonomia e também avançar no entendimento da ecologia e evolução das interações entre parasitas e hospedeiros.

Esta pesquisa tem acontecido graças ao suporte da CAPES e FAPEAM por meio de bolsa de doutorado à Amanda M. Picelli, além de recursos financeiros do CNPQ (Universal 461.573/2014-8 e 429.132/2016-6), FIOCRUZ/FAPEAM (PROEP 001/2014) e do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (Thomas Lovejoy Research Fellowship Program).